Sábado, 11 de Julho de 2009

Do fundo do baú

Escrevendo o roteiro de "Guignard", eu lembrei de um antigo gibi que contava a história do Marquês de Tamandaré. Fui atrás porque sabia que essa história tinha um gancho inicial interessante: um pai contava ao filho quem foi o Marquês de Tamandaré.

Relendo a HQ, percebi que o gancho na verdade era um pouco mais preciso: o menino tinha acabado de construir um navio e o chamou de "Tamandaré", daí o pai perguntou "sabe quem foi Tamandaré?". E tem a partir daí início toda a história desse "herói nacional".

Eu pensei que não tivesse mais essa revista, qual foi a minha surpresa quando arrisquei procurar entre as minhas velhas revistas em quadrinhos. É uma HQ tão antiga que eu nem lembro como veio parar na minha mão, só sei que isso tem uns 20 anos – com a HQ em mãos é fácil perceber que sua editoração é pré-computador.

Tamandaré – Vida e Obra de Joaquim M. Lisboa tem roteiro e desenhos de José Menezes, foi editada pelo Ministério da Marinha – Serviço de Relações Públicas da Marinha e impressa pela Imprensa Naval. Não há nenhuma menção ao governo da época, o que torna mais difícil precisar a data da publicação.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Pra ajudar a contar uma história

Lendo o Guia Oficial DC Comics – Roteiros, da Opera Graphica Editora, escrito por Dennis O'Neil (ou Denny, como diz Stan Lee, que assina a introdução), eu pincei esse trecho do livro – são exatamente os primeiros parágrafos do guia.

"Me faça rir. Me faça chorar. Diga qual é o meu lugar no mundo. Me tire de minha pele e me coloque em outra. Mostre-se lugares que nunca visitei e me carregue aos confins do espaço e do tempo. Dê nome aos meus demônios e me ajude a enfrentá-los. Demonstre para mim possibilidades que nunca imaginei e me apresente heróis que me darão coragem e esperança. Alivie minhas mágoas e aumente minha alegria. Me ensine compaixão. Me entretenha e me encante e me ilumine.
Conte-me uma história." (O'NEIL: 2005, p. 9)

Esse livro me foi emprestado por Rodrigo Bueno – ele tá comigo há mais tempo do que devia, é verdade – e é o que tá me ajudando a escrever o roteiro.

Pra ilustrar este post, aqui vai mais um desenho do velho Guignard (clique na imagem, pra ampliar).

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Enfim, o meu

Depois de alguns meses pesquisando, agora é hora de pôr a mão na massa. Começo hoje a produzir o meu primeiro projeto de quadrinhos.

Pra não entregar o ouro de uma vez só, eu vou postar aqui, sempre que possível, alguma novidade deste projeto.

Por ora, fiquem com o primeiro esboço do meu objeto de pesquisa, o artista fluminense Alberto da Veiga Guignard.

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2008

Dick Sprang inspira novo desenho de Batman



Batman: The Brave and the Bold, a nova série do Homem-Morcego, traz uma clara e assumida referência aos desenhos de Dick Sprang. Mais amigável e bem-humorado, o desenho ainda faz referência a Jack Kirby e ao Batman de Adam West.



A nova série é bem diferente do Batman nos últimos 20 anos, mas familiar a tudo que se conhece do personagem nos seus primeiros 30 anos de existência. A cada episódio o morcegão aparecerá ao lado de outro herói do Universo DC.



Outra diferença é que Robin, Comissário Gordon, Alfred, Gotham City, Liga da Justiça os tradicionais vilões não aparecerão na série. A idéia é colocar o personagem em situações fora do seu cenário usual.

Veja algumas imagens de Batman: The Brave and the Bold.



video

Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Frank Miller e a estética de Sin City



Frank Miller revolucionou as adaptações dos quadrinhos para o cinema. Foi algo tão marcante que parecia que ninguém mais poderia repetir o feito, já que a estética e o ritmo viraram marca de Sin City.

Acontece que a repetição veio, e pelas mãos do próprio Miller. The Spirit, nova adaptação com lançamento previsto para 2009, tem a cara de Sin City: o clima noir e uma cor vibrante, destacando algum detalhe - no caso de The Spirit, a gravata vermelha de Denny Colt.



Outro elemento marcante na produção é o abuso de cenários 3D, por meio do chroma key, que "recorta" os atores, facilitando sua inserção em outro cenário.



Samuel L. Jackson, como Octopus


Eva Mendez, como Sand Saref


Gabriel Macht, como Spirit/Denny Colt

Há, é verdade, uma alternância entre cenas em preto e branco e em cores, mas a julgar pelo material de divulgação - incluindo o trailer -, The Spirit adota sim o visual de Sin City".

Sin City foi adaptado dos quadrinhos de Frank Miller pelo diretor Robert Rodriguez, que adotou a estética dos quadrinhos de Miller. O autor de Sin City trabalhou no filme como co-diretor.

Ou seja, a visual adotado por Rodriguez tinha uma justificativa; em The Spirit entende-se que Miller repete o formato, já que a obra de Will Eisner não apresenta (a não ser o clima noir) essas características.

Fica a curiosidade de ver o resultado final disso, enquanto que a espectativa cai vertiginosamente.

Sábado, 30 de Agosto de 2008

Desenhos de Jim Lee servem de referência para jogos da DC



A DC Comics está investindo pesado nos games. Usando desenhos de Jim Lee, Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde, Flash e muitos outros ganham seus respectivos poderes e habilidades de acordo com as capacidades do jogador, que pode criar um herói ou vilão, determinar e desenvolver seus poderes, e enfrentar superseres similares ou até mesmo mais poderosos que o seu personagem.

Ao criar o seu personagem, o jogador ganha "itens de série" como voar, ter supervelocidade e visões de calor.

Veja algumas imagens e um trailer do jogo.







Vídeo: Trailer - DC Universe Online

Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

Da Morte Nasceu o Herói

Um jovem, que teve a família destruída tragicamente em um assalto, responde à sua dor criando um símbolo de justiça e força. Um herói. Um ser capaz de trazer esperança e fé a um mundo tomado pelo crime e pela injustiça. Não, não é de Bruce Wayne que eu estou falando, mas de Jerry Siegel, um dos pais do Homem de Aço.

Por volta das 20h de 2 de junho de 1932, um assalto à loja de roupas usadas de Mitchell Siegel, um imigrante judeu vindo da Lituânia, provocou o ataque cardíaco que o matou. Ninguém foi preso.

O incidente aconteceu em Cleveland, Ohio, e Jerry, então com 17 anos, junto com seu amigo Joe Shuster, teria por isso criado Superman, o super-herói mais conhecido do mundo. Um ser à prova de balas e com força sobre-humana, único sobrevivente de Kripton, seu planeta natal.

É o que nos quer fazer acreditar Brad Meltzer em seu livro The Book of Lies, com lançamento previsto para a semana que vem nos EUA.

Evidências não faltam, a começar por uma carta, enviada por um certo A.L. Luther a um jornal local, expõe a necessidade de vigilância naqueles dias duros da depressão americana. Para Meltzer não resta dúvida de que foi daí que surgiu o nome do principal inimigo de Superman: Alexander "Lex" Luthor.

"Em 50 anos de entrevistas, Jerry Siegel nunca mencionou que seu pai tinha morrido em um assalto. Mas pense, seu pai morre em um assalto e você inventa um homem à prova de balas e que se torna o maior herói do mundo. Desculpa, mas aí tem coisa", diz Meltzer.

Domingo, 20 de Abril de 2008

The Spirit


Prévia do filme de Frank Miller – baseado no personagem de Will Eisner, The Spirit – no 2008 NY Comic Con.

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Sábado, 22 de Abril de 2006

É Ler para Crer

Do UOL Diversão e Arte

Will Eisner faz "Pequenos Milagres" com as histórias de uma vizinhança
ISADORA FERNANDES
UOL Crianças


"É difícil falar sobre milagres. Ou você acredita neles, ou não. Eu acredito". É assim que Will Eisner (1917-2005) começa o prefácio de "Pequenos Milagres", recém lançado no Brasil pela Devir. No álbum, ele recupera os "causos" de sua juventude em um bairro de Nova York e os mistura com contos dos folclores judeu e alemão.

Will Eisner ficou famoso nos anos 40, quando criou o personagem "Spirit". Em 1978, ele publicou aquela que é considerada a primeira "graphic novel" (novela gráfica) da história: "Contrato com Deus", que fala sobre a vida nos cortiços do Bronx durante a Grande Depressão. Este álbum foi seguido de uma série de graphic novels de certa forma autobiográficas, como "O Edifício" e "Avenida Dropsie", que consolidaram Eisner como um dos mais influentes artistas dos quadrinhos.

"Pequeno Milagres" traz quatro histórias sobre coincidências tão incríveis, que só é possível acreditar nelas como se fossem aquilo que Will Eisner diz que elas são - milagres.

A primeira história, "O Milagre da Dignidade", é sobre Tio Amos. Considerado um parasita por algumas pessoas da família e um exemplo de dignidade por outras, ele consegue ir da ruína à riqueza e desta de volta à ruína num passe de mágica, caindo em armadilhas que ele mesmo cria.


"Mágica de Rua", segunda história do livro, fala sobre a sabedoria necessária para sobreviver no "território hostil" da vizinhança. Espécie de parábola, ela mostra como o Primo Mersh consegue vencer três valentões do bairro usando sua esperteza. "Mágica de Rua" fez parte do repertório da peça "Avenida Dropsie", adaptada no Brasil pela Sutil Companhia, de Felipe Hirsch.


"Um Novo Garoto no Quarteirão", terceira parte de "Pequenos Milagres", busca inspiração em Caspar Hauser - citado por Eisner no prefácio do livro. Um garoto "selvagem" aparece do nada e muda a rotina do bairro, harmonizando as relações entre todos, até que o egoísmo de um dos moradores faz com que ele fuja e todas as desgraças voltem a fazer parte do cotidiano da vizinhança.


Will Eisner termina sua série de "meinsas" (como se chamam os contos da tradição oral judaica) com uma história de amor. "O Anel de Casamento" é sobre a união, por conveniência, de uma muda e um deficiente físico. Trata-se de um conto melancólico sobre egoísmo, traição e perdão.


São quatro histórias simples, que poderiam ter se passado com qualquer pessoa, em qualquer lugar. O que chama a atenção no álbum - e talvez em toda a obra de Will Eisner - é a maneira como ele transforma personagens e situação ordinários em "Pequenos Milagres". É como se, apesar das páginas em sépia, Eisner de repente "colorisse" o cenário desbotado e em preto-e-branco que estamos acostumados a ver todos os dias.


Will Eisner faz "Pequenos Milagres" com as histórias de uma vizinhança - 09/04/2006 - UOL Diversão e Arte

Escrevendo e ilustrando as histórias, que lhe foram transmitidas de forma oral e que ficaram "atormentando" sua cabeça, como uma idéia que pede registro, o saudoso Will Eisner faz finalmente, nesta obra, o resgate e a reconsciliação com a sua ascendência judia, já iniciado com Contrato com Deus, O Edifício, Avenida Dropsie e Fagin, o Judeu.

Nas melhores bancas e livrarias. B-)

Sábado, 1 de Abril de 2006

A luta continua

Pra quem ainda não notou, no terceiro filme da cinessérie dos X-Men, a primeira formação, finalmente, se completa. Ciclope, Jean Grey, Fera, Anjo e Homem de Gelo estão juntos em X-Men 3.





Numa visão zagalliística, X-Men 3 tem 3 núcleos principais que, ora se entendem ora se estranham.

No primeiro núcleo, estão os X-Men, liderados por Xavier, que quer o convívio harmônico entre o Homo sapiens e o Homo superior.

No segundo, está Magneto, que chama os mutantes para uma luta contra os humanos, a fim de subjugá-los, seguindo a teoria darwinista da seleção natural das espécies.

No terceiro, vemos os humanos que, na tentativa de eliminar o perigo mutante, criam, financiados por Warren Worthington, pai de Anjo, um "antídoto" que promete "curar" mutantes.

Xavier e Magneto, que parecem ter agora um inimigo comum, atacam, paralelamente, a ameaça humana. Dr. Hank McCoy, o Fera, é finalmente recrutado. Grande cientista, especializado em engenharia genética, ele é a resposta de Xavier ao ataque do Homo sapiens.

Magneto ataca também ao seu modo, ao lado de Mística e Fanático - Cain Marko, meio-irmão de Xavier -, entre outros. O vilão esponde com violência, como sempre.



Os X-Men contam também com os nossos amigos de costume, Wolverine, Tempestade e Vampira, nessa luta pela paz.



Teremos ainda, de forma mais ativa, Kitty Pride e Colossus. O retorno do gigante russo e da mascote da equipe deverá ser bem explorado, seguindo o que já foi feito em Surpreendentes X-Men, de Joss Wedon e John Cassaday.


Talvez esse filme seja o que mais discutirá a questão do racismo e da intolerância da série. A resposta humana à "ameaça" mutante, buscando uma "cura" para o mal que esta ameaça supostamente representa, se torna tão intransigente quanto a teoria em que Magneto se baseia.

É ver, torcer e se inspirar na mensagem do filme.

Sexta-feira, 31 de Março de 2006

O Uniforme Negro "ataca" novamente

Parece que tudo começou com a divulgação extra-oficial da imagem acima.

Mas hoje deu no Omelete que a "notícia" de bastidores de que o Uniforme Negro teria ainda mais espaço no terceiro longa da franquia do "amigão da vizinhança", é uma farsa. Farsa essa muito bem feita, por sinal. A imagem do araquinídeo sob a chuva foi seguida de outra, ainda mais elaborada, mas não demorou muito para a história toda cair por terra.


Parece que a suposta presença de Venon no novo filme deixou o simbionte querendo ainda mais: não bastava aparecer "vestindo" Eddie Brock, ele queria aparecer dominando Peter Parker, também.

Boatos e a longa espera, por este que promete manter o alto nível dos dois primeiros filmes, em termos de adaptação dos quadrinhos para o cinema.

Agora, é esperar.

Quinta-feira, 23 de Março de 2006

A ERA DO GELO 2


Voltando ao assunto da ilustração na publicidade, aí vai mais um trabalho fresquinho, um pouco atrasado, já que a veiculação da campanha começou ontem.

Sem título rebuscado, direto, como pede o Agora, diferentemente de como é pra Folha.

Terça-feira, 21 de Março de 2006

BRASILSELEÇÃOFUTEBOLCARNAVAL


Ilustração fresquinha pra capa de um CD que eu estou criando.

Provavelmente eu seja um dos publicitários/designers/capistas mais "baratos" do mercado, por usar o recurso da ilustração, sempre que me falta o recurso da foto - e, geralmente falta, por motivos financeiros, já que ninguém quer gastar muito nesses casos. Assim, desde os tempos da minha primeira passagem pela Folha de S.Paulo, tem sido assim.

Eu não lamento, na maioria das vezes. Acho que acabo usando a ilustração sempre que cabe (se for pra não ficar legal e eu não tiver foto, há sempre o "all type" pra resolver a questão). Sem falar que ver uma ilustração que você fez e que você curte, num jornal, numa revista ou numa prateleira, sempre dá um gostinho bom, um algo a mais no prazer de ver um projeto finalizado.

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2005

O repouso


Depois de sair do labirinto, o explorador resolve descansar um pouco. Ele pára para refletir sobre seus últimos passos e pensar em quais serão os próximos.
O seu primeiro guia o espera, o explorador ouviu de um arauto que ele andou dizendo a todos os outros seguidores que o seu discípulo mais querido o decepcionou, abandonando-o, é a primeira vez que ele fala isso em público. Já havia ouvido isso do próprio guia, anos antes, e o odiou por isso, o odiou por ser mais amado por ele que os outros. Nunca quis esse amor preferencial, via os outros e sentia culpa, por culpa do seu guia. Daquele momento em diante, se tornou um discípulo arredio, tentou desapontá-lo o máximo que pode, para que ele enxergasse os outros, que também queriam o seu amor. "Irresponsável!", pensou. "Com que direito ele pode dizer algo assim, aos outros?".
Esse guia sempre foi um tipo tacanho, mesmo, sem tato. Venceu a fome. Correu o mundo e se tornou grande, tão grande que, quando caiu, não pôde mais se levantar. Mas ainda exerce o seu poder, ou tenta mantê-lo. Um poder patriarcal, manipulador.
O explorador aprendeu tudo com ele. Tem muito dele. Mas não sabe usar contra o seu guia o que aprendeu. Espera descobrir, na hora em que estiver frente a frente com o fantasma - que o atormentou todos esses anos em que esteve longe, correndo o mundo, como o seu guia. Mesmo o rejeitando, seguiu todos os seus passos. Fez caminhos tortos e guarda valores herdados dos quais nunca se livrará. Mas pode policiá-los, porque eles são como vícios que, ao primeiro deslize, podem voltar.
O que mais o deixa triste, é que, no fundo, há ali uma alma perdida, que não consegue conviver com seus próprios fracassos e medos. O explorador identifica isso e tenta ser diferente.
Na sede há, além do guia e dos outros dicípulos, a governanta. Ela salvou o guia, anos atrás, da morte certa. Nessa época, ele era um errante, sem lar, sem guia. Sem dentes, nem garras. Sem nada. Ela o tirou do frio, dando o seu coração quente, sua confiança, em sabe Deus o quê. Mas ela confiou, é verdade. Resolveram construir a sede. O errante se tornou guia, enfim. Passou a ostentar o brilho da vitória nos olhos, como quem ostenta distintivos ou dentes de ouro. Ele era o dono do mundo, ninguém era maior que ele. Ninguém podia mais.
Mas uma queda o deixou no chão. Ele amargou a derrota, furando e cortando as suas entranhas, com precisão cirúrgica. Hoje ele vive no restou da sede, entre ruínas de um passado de glória. Mas ele resiste a ver o que o derrubou: ele foi traído por si mesmo.
A governanta, que nunca o deixou só, chora em silêncio. Tira de si forças que nunca havia experimentado antes, capazes de sustentar a sede em seu seu próprio lombo, se for preciso. Sempre quieta.
É hora de levantar e seguir na jornada...

Foto de Maria Carolina Maia

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2005

O passado também tem seus anjos


Agora ele está em um labirinto. Entre tantas entradas, tantos caminhos, ele espera encontrar as respostas que o deixarão em paz com o seu passado. Ele vê um menino, que, anos atrás lhe pediu para ser o seu guia. Ele aceitou, mesmo sabendo que ainda não estava pronto e, talvez por isso mesmo, tenha errado tanto. O menino reafirma que ele ainda é o seu guia. Ele já não sorri mais com antes, está fosco, sem brilho, mas ainda deixa escapar uma chama, de seus olhos, e um sorriso trêmulo, de seus lábios. "Eu sei que sou, e me orgulho pela confiança que depositas em mim, ainda", ele está aqui pra se reconciliar com o seu passado, encarar os seus demônios, seus medos. A si mesmo.
"Menino, me ensine o caminho, para que saia logo daqui", ele implora. Eles se dão as mãos e caminham, sossegadamente. Nesse momento, o explorador até a se arrepender de ter pedido para que o menino o tirasse logo dali. A paz que ele experimenta, depois de dias de tempestade, de deserto e de sede, é quase fulminante, em seu peito machucado. "Menino, continue comigo, durante o resto da jornada", "não posso, ainda. O que fizestes para que eu te siga, agora? Além do mais, o Rancor nunca permitiria...". O explorador abaixa a cabeça, sabe que o menino tem razão. Ele sai do labirinto, prometendo voltar, não ao menino, mas a si mesmo.

Foto de Maria Carolina Maia

Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2005

Encontrando os seus demônios


O velho guia quer falar com o explorador, mas ele não responde aos seus apelos. "Não agora, meu velho". O explorador acaba de descobrir que está só, e que é assim que deve ser, durante a sua jornada. Ele precisa descobrir de onde vem e o que ele é, mas essa resposta ele só terá quando encarar os seus demônios, em especial um: aquele que foi o seu primeiro guia.
Nenhum perigo, nenhuma missão o atemorizou tanto quanto esse encontro. Ele já percebeu que encarar o seu primeiro guia vai ser o mesmo que encarar a si próprio. A situação ficou insustentável e o explorador não tem mais como voltar. Agora é entrar no túnel escuro do seu passado, tateando as paredes a procurar portas, respostas.
A névoa e o abismo fizeram com que ele perdesse o foco da sua missão, mas ainda resta esse túnel, negro, silencioso. O explorador nunca sentiu tanto medo. Ele não teme os outros, só a si mesmo. Ele sabe que precisa passar por essas provas, para se tornar um guia de verdade. "As crianças estão te esperando, homem!", ele lembra. Essa é parte da sua missão.
Andando pelo corredor, ele encontra velhos e novos companheiros. Alguns o ajudam, outros se mostram indiferentes ou apenas interessados em suas conquistas. Com os que se mostram solidários, ele é franco, honesto. Se mostra inteiro, frágil e pequeno. Fala de suas dificuldades e medos.
Com os outros, não. Ele ainda está aprendendo a jogar, a conhecer os seus "adversários". "Este lugar não admite filhos fracassados", ele sabe. Por isso, para os que querem apenas saber de suas desgraças, ele mente. Aumentou o tamanho dos monstros, a quantidade de medalhas. Rindo de tudo isso, de todo esse falso interesse nele. Só não não aumentou o número de mulheres que teve, "apenas Vênus", diz. Acha graça quando vê a cara de espanto dos seus antigos companheiros, que, na verdade, nunca partilharam da mesma luta que ele.
Vênus diz, no seu ouvido, "tu tens muito deles todos". Ele sabe que ela está certa. "Agora, eu vou ter uma conversa séria com ele". Ele adiou muito essa conversa, agora, que deixou a situação chegar a esse ponto, não vai mais poder voltar atrás. Agora, ele vai ter de fazer o caminho reto. Direto. "O velho guia vai ficar orgulhoso de ti!", ela diz. "Tu já és grande, explorador, não tenhas medo". Mas ele tem. Vai ser uma luta difícil. Ele vai esbravejar e gritar, mas o explorador terá que se manter firme. Tem medo de não ter forças pra isso. Ele o intimida. Nunca pensou que fosse assim. "Tu estás começando a se conhecer, explorador. Não pare nem recue. Tu vais descobrir muita coisa".

Foto de Maria Carolina Maia

Domingo, 11 de Dezembro de 2005

Voltar quase sempre é partir para um outro lugar


A visão está turva. Uma névoa densa que aumenta e cega, cada vez mais. Sem norte, sem rumo, agora ele só tem as suas palavras e, às vezes, a sua voz. Seria tão mais fácil ter, também, a sua mão perto, para guiá-lo nesse vazio, cheio de incertezas, dúvidas e desejos.
Vagando, dispensando até o velho guia - nem pensa nele, não o quer, agora - pois, quer achar o caminho só - já que está só, nesse momento, sem a única pessoa que poderia tirá-lo desse mar de insegurança e sedução.
Mas, em meio à névoa, ele percebe um ou outro ponto de referência: ele vê um abismo, e é desse abismo que ele tem mais medo, pois sabe que, se jogando ou caindo nele, não poderá voltar. Nunca mais. Mas esse abismo tem algo encantador, que o chama e o seduz para o desconhecido. Ele é um explorador e essa possibilidade o enche de vontade de se jogar, de descobrir o que há ali. Ele adolesce, é verdade, e se enche de vaidade e vigor. Nunca pensou que seria assim. Prefere, hoje, nunca ter voltado, até.
Ele já sabia das surpresas e tinha medo do que ia encontrar de novo, no seu lugar, que sempre foi sua referência e ponto de refúgio, caso sua exploração não desse certo. Mas ela deu certo e ele voltou cheio de vitórias, trazendo o anel, que lhe conferia o direito à sua maior conquista: o amor de Vênus, que ele deixou no local que havia explorado por anos, prometendo a si mesmo que voltaria para buscá-la. E agora vem esse lugar, que ele achava que conhecia tão bem, lhe dando novos desafios. Essa "supresa" ele não esperava, apesar de saber que "voltar quase sempre é partir para um outro lugar", como já lhe disse, no rádio, outro marujo, que também já viveu navegando.
A voz da musa lhe disse que ela já quebrou os seus navios, e que o espera no cais.
O que será dele sem a sua musa? quais as suas chances de sobreviver, se se jogar nesse abismo?

Foto de Maria Carolina Maia

Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

Gerações

Desde que eu me entendo por gente, eu leio quadrinhos. Tudo começou com o meu pai, que lia quadrinhos de faroeste, aventura, policial, mistério, terror e ficção, publicados pela extinta Editora Vecchio. Ele tinha, em sua invejável coleção, títulos como Tex, Zagor, Martin Mystère, Sobrenatural.

Mas uma infiltração na parede do depósito de casa, onde eram guardadas as caixas de gibi, deu fim a quase todo o acervo do meu pai. Restaram apenas três revistas para, literalmente, contar história: três exemplares de Tex, que eu guardo até hoje.

Eu, na verdade, não era grande fã daqueles quadrinhos - eram centenas de gibis em preto e branco, não muito atraentes -, pois o meu negócio, na época, era Turma da Mônica e algumas coisas da Disney. E foi assim até o dia em que eu ganhei, do meu pai - e só podia ser dele -, o meu primeiro gibi de super-herói.

Sem saber, ele me deu uma edição histórica do Homem-Aranha, em que Peter Parker pede a mão de Mary Jane Watson em casamento. Ele não podia ter escolhido melhor edição e melhor personagem para me trazer, definitivamente, para o mundo das HQs.

Depois de consumir tudo o que eu podia do mercado americano, foi a vez de voltar às produções nacionais: Piratas do Tietê, Geraldão e Chiclete com Banana. Nessa época, eu já começava a iniciar o meu filho mais velho - este que lhes sorri, vestido de Batman, aí do lado -, que era ainda criança e, como toda criança, se deliciava com a Turma da Mônica.

Gradativamente, na família, a leitura de quadrinhos vem aumentando: eu leio mais que o meu pai e menos que o meu filho, proporcionalmente. Um hábito mais do que saudável, ao contrário do que diziam educadores e pais, 50 anos atrás, quando argumentavam que as HQs eram nocivas à formação do caráter do indivíduo, que incitavam ao crime e outras bobagens.

Agora, é hora de abrir estradas. Como qualquer leitor de quadrinhos, eu sei que há um mundo de coisas interessantes - outras nem tanto - a descobrir. O mundo todo lê e faz HQs, para todos os gostos, credos e idades. E eu estou descobrindo esse mundo à medida em que leio algo novo, seja numa feira, num sebo ou por indicação de alguém.

HQ é, também, leitura de adulto. Basta procurar o que mais lhe agrade e acrescente. Tenha uma boa aventura literária.

Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

Linguagens convergentes

Já não é de hoje que vemos o cinema ser “misturado” com outras mídias, e aqui cito as que mais se destacam: vídeo-clipe, comercial e história em quadrinhos. Essa fusão pode resultar numa nova forma de fazer e pensar cinema, e de fazer e pensar essas outras formas de arte seqüencial. Resta saber qual o novo formato que está por vir.

Assistindo a Sin City, tive a nítida sensação – já alertada por Roger Ebert, do Chicago Sun Times, e por Eloyr Pacheco, do Sobrecarga – de estar assisitindo a uma história em quadrinhos animada. O contrário também já foi visto, pelas mãos do próprio Frank Miller, em Cavaleiro das Trevas, em que o autor misturava a narrativa dos telejornais com uma linguagem, por assim dizer, cinematográfica. Algo revolucionário na época, servindo de referência para muitos outros autores, que o copiaram descaradamente.

Na primeira tentativa - fracassada - de levar Sin City à telona, em 1996, Frank Miller chegou a blasfemar e anunciar que estava desistindo do seu sonho hollywoodiano. Seu argumento, na época, era de que Hollywood “sempre quer muito mais do que está disposta a dar”. Antes disso – e talvez até por isso, também, ele estivesse desgostoso com a grande indústria de Los Angeles -, ele já havia assinado os roteiros dos fracos Robocop 2 e 3.

Quanto às outras áreas, creio que o vídeo-clipe, por ser uma linguagem nova, recente, deve ser a mais sujeita a sofrer mudanças, e não apenas a se multiplicar em novas “frentes”, como é o que, de fato, está ocorrendo com o cinema e a publicidade (vide Cidade de Deus). Nos quadrinhos, isso é ainda mais evidente, pois há espaço para todas as linguagens, que são antecessoras ao “quadrinho cinematográfico”. Isso serve para acalmar os leitores mais puristas.

O cinema ainda se “apropriou” da linguagem de outro gênero de arte: o teatro. Foi assim em Dogville, de Lars Von Trier, em que os atores interagiam com um cenário imaginário, uma vila desenhada em planta baixa, sobre um cenário negro.

De tudo o que vi de adaptações de HQ para o cinema, nos últimos tempos, Homem-Aranha (1 e 2), X-Men (1 e 2) e Batman Begins são os campeões. Excluí Sin City dessa lista por considerar o filme mais que uma adaptação: ele está mais para uma fusão entre a nona e a sétima arte. Hors concour.


Tomara que esse “casamento” gere ainda mais frutos, e que torne-se cada vez mais permeável, possibilitando a livre passagem de roteiristas, desenhistas, diretores e animadores por todos esses meios. E, enfim, que seja eterno enquanto dure.