quinta-feira, 13 de novembro de 2003

Mais cacos de uma história

Eu ando mesmo fragilizado. No ápice da discussão, lancei um copo d'água contra a parede e me senti ridículo quando notei que o copo era de plástico, isso mesmo, plástico. Só um froxo, mocho, cagão joga um copo de plástico contra a parede, e ainda mais com água. Eu até esperei que ela me agradece pela ajuda... Tive ganas de pegar um de vidro, só para mostrar que sou macho, talvez uma taça de cristal fosse melhor, eu não gostava daquilo mesmo. Mas não, peguei um pano e fui secar o chão.

quarta-feira, 12 de novembro de 2003

Saí do bar, acendi um cigarro e percebi meu bigode "colado", resultado da cerveja. Passei os dedos entre os pêlos para soltá-los, em vão, eles continuavam grudados. No caminhovi um orelhnao e resolvi ligar para Marluce, mas aí apareceu um senhor de idade na frente, pensando que ele ligaria logo, ele começou a procurar as fichas telefônicas nos bolsos, eu estava fazendo o mesmo quando me vi lado a lado com o velho numa disputa de quem encontrava as fichas primeiro.
Depois de sair da entrevista eu parei na Praça da Independêndia, vi que em frente havia um boteco e calculei de imediato, eu tinha exatos R$ 2,00, que dava, na época para pagar uma cerveja e a passagem de volta para casa. Eu tinha vendido meu carro há três meses para saldar dívidas, contra a vontade do meu pai, que insistiu em me ajudar caso eu não o vendesse, mas o orgulho falou mais alto. Ainda mais porque eu fiz engenharia ao invés de medicina, como era de sua vontade. Sentei e vi um homem sentado, sozinho, que se aproximou de mim sob o pretexto de me pedir um cigarro.

sexta-feira, 7 de novembro de 2003

Não chora, amor

Eu já esperava por enjôos, tinha medo até, mas nada que me impedisse de continuar, mas segundo uma amiga, "Se não rolou na primeira, não vai rolar na segunda".
Ao dar o primeiro toque de "concentração" (que seria de dez minutos), eu comecei a entrar em um túnel de uma cor laranja-tangerina - se é que se pode chamar assim – onde uma voz me "empurrava", não para entrar, mas para sair. É como se eu estivesse preso dentro de mim, e aquela sensação deixou claro que eu precisava sair para "enxergar" o que havia lá fora. Foi lindo, a voz – parecia a de um rapaz, de uns dezessete anos – me falava que eu não podia "ver" e nem "sair" sem me abstrair do que acontecia ao meu redor. Sempre que eu estava chegando lá um sorriso sacana, de canto de boca, me escapava, e eu pensava comigo mesmo: "Tu tá de sacanagem. Eu vim aqui pra te ver e você se nega a me deixar entrar na ‘luz’". Mas aquela frustação não chegou a me frustar de verdade, eu estava em paz. Então, eu pensei "Acabou", e soou o primeiro toque dos três últimos daquela curta pausa para meditação. Eu estava sintonizado.
Os hinários começaram, eu não cantei, só me permiti acompanhar lendo, em silêncio. Quando eu tentei voltar para o túnel aqueles hinários não me deixavam "escapar". A irritação foi me dominando, não só com os cânticos desafinados e desentoados, mas também, acreditem, com os peidos (como já era esperado, alguns vomitam, alguns peidam e outros cagam). "Como alguém pode se concetrar no meio deste barulho e fedor insuportáveis?", pensei.
Eu já me contorcia e questionava. Minha angústia estava só começando quando eu me lembrei do livro que eu estou lendo, "Operação Cavalo de Tróia" de J.J. Benitez. Mas não é só isso, para completar, eu estou numa das partes mais dramáticas da Paixão de Cristo, as sessões de tortura que antecederam a crucificação. Meus dedos dos pés - repetindo os movimentos que o Nazareno fazia enquanto era chicoteado por três centuriões – se moviam para dentro. Eu sentia uma culpa cristã como nunca havia experimentado, querendo sair daquela "cena". O medo e a angústia de Jesus agora eram compartilhadas comigo.
No intuito vão de sair e reagir àquilo, eu me levantei. Meu corpo se movia de um lado para o outro com um "João-teimoso", então cedi e voltei a sentar. Estava exausto. Aquelas sensações estavam me engotando as energias. Minhas mãos estavam frias e inertes, então, em um movimento de auto-preservação, tentei movê-las, entrelaçando os dedos. Agora eu repetia os movimentos de Pedro, depois negar Cristo pela segunda vez. Mãos juntas, como já mencionado, cabeça entre as pernas e o corpo fazendo um "vai e vem" para frente e para trás, como um lamento.
Nessa hora eu vi um corredor de paredes disformes com estampas muito pequenas, eram pequenos quadrados de tom ocre. Saindo desse corredor apareceu a Terra, e ela era toda formada de "Lego" e num giro a América Latina virou para a minha direção.
Os cânticos continuavam e os peidos, aumentavam. Eu precisava levantar, ou aquela concentração de enxofre curtida em um intestino caduco, decrépito, emanado dispodoradamente pelo senhor que sentava ao meu lado, iria me fazer perder a consciência.
Eu fiz um esforço descomunal para reunir os caquinhos do que restava de mim, dispersos no espaço. Consciente da minha necessidade de respirar ar puro, saí me dirigindo à ante-sala. Tomei um pouco d’água e vi ao meu lado um senhor gordo, muito simpático, todo de branco, perguntando se estava tudo bem. Eu respondi afirmativamente e me sentei em uma cadeira que ficava à direita da porta. Esta sala era pequena, de algo em torno de 3m2, de paredes brancas e quadros com representações religiosas e transcendentais. Aquilo tudo fez minha cabeça despencar sobre a barriga e óculos, que estavam pendurados na camisa. Com medo de quebrá-los, guardei-os no bolso. E uma satisfação me arrebatou. Eu estava "ligado" nas pequenas coisas. Então, o gorducho tocou meu ombro e, com seu sorriso peculiar, me convidou a entrar me reintegrar ao grupo.
Confuso, mas querendo me concentrar agora em sair daquele tormento, tentei prestar atenção no hinário da vez, não deu, eu não encontrei a merda da página. Frustrado, fechei o livro e um homem que estava ao meu lado sugeriu que trocássemos os livros. A princípio não entendi, mas o seu intuito era que eu acompanhasse a turba, foi aí que eu vi que ele havia me passado o que eu tanto procurava, a porra do hinário.
Aquele homem e o gorducho – que, na última vez o apelidamos de Genival Lacerda – fizeram as vezes de anjos da guarda, sempre com uma mão espalmada e os dedos em minha direção. Me aconselham que descruzasse os braços, para fluir a energia.
Fui ao banheiro para jogar água no rosto e fui surpreendido com um "golpe" interno que me fez lançar um "tiro" de vômito no vaso. Me olhei no espelho e, de súbito, mais um jato. Foi pouca coisa, era basicamente água e alface.
Voltando à sala, eis que eu reconheço alguém. A única pessoa que poderia me tirar daquele martírio (já que eu não conseguia sair, nem sozinho e nem com a ajuda dos meus "anjos"), ela me sorriu mas eu não sei se consegui responder ao gesto. Então, voltei a sentar, mas desta vez temendo os flatos que deviam estar a todo o vapor, peguei uma cadeira ao lado da porta. Minhas pernas estavam pedindo ajuda, solteias no chão, moles e trêmulas. Nessa hora o gordo me falou que estava acabando, pedindo que eu tentasse levantar para fazer as últimas orações (3 Pai-Nossos e 3 Ave-Marias), que também iniciam as sessões.
Levantei mas não tardei a desmoronar na cadeira novamente, olhei no relógio e já passava da 00:30h. De repente ela sentou ao meu lado me perguntando se estava tudo bem, eu disse que só queria ir para casa, rápido.
A gente saiu e a turma já estava na ante-sala comendo vorazmente. Esperei a minha flor se desfazer da saia que obrigaram a usar e fomos pro carro. Antes de entrar no carro eu pedi que não se demorassem, que da grana, o lanche era a menor parte, e por isso não valeria a pena me deixar esperando. Deitei no banco de trás e fiquei esperando o resto do pessoal que estava conosco. Foi aí que o pânico me tomou de novo. Eu estava trancado no carro. "Como ela fez isso comigo? Vão me encontrar abri de boca aberta e olhos esbugalhados, sem vida". Eu tentei abrir a porta, em vão. Quando eu estava prestes a quebrar os vidros com os pés, vi que as portas estavam travadas. Puxando o "pino" eu estaria livre. E tremendo, agitado, consegui abrir e dei uma gostosa puxada de ar. Mas me aborreci quando percebi que fui preterido, eles estavam mais interessados em comer do que me ajudar. "Eu vou dar o caralho com eles!", "Isso não se faz!". Acendi um cigarro e quando olhei para a porta que dava às escadas de acesso à ante-sala, vi o peidão mastigando, produzindo mais gases nocivos.
O tempo parou, o relógio não andava. "Foda! Ainda mais essa!", "Eu quero ir embora, porra!"
Quando o pessoal chegou eu me encontrava em total agitação. E como prometido, reclamei da demora dos três. Quando íamos deixar os nossos amigos em casa, no caminho avistamos algumas viaturas. Na seqüência vieram os comentários sobre o domínio que o crime está exercendo sobre as grandes metrópolis, PCC, essas coisas.
Chegando lá, resolvemos pernoitar ali mesmo, não tínhamos condições de seguir viagem. Eu continuava irriquieto, andando de um lado para o outro, tentando me recompor.
Até que enfim deitamos. Tomei um delicioso chá de camomila (eu acho) feito com todo o carinho. Nesse momento, após vários pedidos do meu amor para que eu me controlasse, eu a vi chorar. Eu, ao mesmo tempo em que me sentia mais calmo, também me sentia triste. Eu sabia que tinha passado parte da minha angústia para ela.
Agora, um pouco mais relaxados e depois de ouvir algumas explicações do que ocorreu comigo, eu a pedi que não chorasse. Eu tinha, enfim, voltado.