sexta-feira, 25 de junho de 2004

Eu morro todo dia, na mesma hora e no mesmo lugar

Na Consolação
Eu quase morro
Mas na Cardeal
Eu me enterro

Não sei se é o calor
Se o cheiro
Se o odor
Mas quando o ônibus
Começa a encher
Sinto no vidro
A cabeça bater
São horas e horas
Diariamente
Nesse enlatado
Lotado de gente

O olhar

Primeiro a bunda
Depois os seios
E a genitália
Com muito jeito
Como um sujeito
Observador
Não vou negar
Ser espectador

E elas passam
Sempre sorrindo
Estão falando:
"Está me seguindo"
Como todo velho
Que não é menino
Do calçadão
Volto sorrindo

Lembrando os tempos áureos
Dos relicários
Dos penduricalhos
Da moça viçosa
Que toda prosa
Passa vistosa
Mas não olha, não

Severo é o tempo
E isso não é um lamento
É apenas uma constatação

No ônibus

No ônibus eu escrevo
Quando não durmo
Quando não leio
Quando não conto os postes
Não memorizo placas
Pedestres
Protestos
Ambulantes
Bundas
Cachorros
(Vivos ou mortos)
Árvores
Portões
Turbilhões
De carros parados
De motoristas revoltados
De buzinas frenéticas
De rádios ligados
De cigarros acesos
Que vontade de fumar

Quedas-de-braço

Um dia
Quando estiverem de luto
Mas alguém gritar: "Seu puto,
vê se vai e não volta!"
Sentirei saudades desa vida
De imperfeições
E incoerências
De vivências
E paixões

Como se vê
Ser unânime nunca foi o meu forte
Mas reconheço que tive sorte
De ter vivido até a morte

Limpei minhas merdas
Paguei as brigas que comprei
Não deixo dívidas
Mas deixo saudades
Das brigas
Dos casos
Das quedas-de-braço

Servi

Servi
Toda vida, te servi
Te apanhei
Pelos cabelos
Pelos braços
Pelos cantos

Segui
Minha flor, eu te segui
Te aplaudi
Pelos textos
Pelos gestos
Pelos cotovelos

Sofri
Ai, meu Deus, eu sofri
Te procurei
Pelos cantos
Pelos gestos
Foi o fim